Por volta das 4 horas da madrugada de sábado, uma turma de jovens, entre 18 e 29 anos, a maior parte mulheres, aglomera-se em frente a um antigo sobrado pintado de verde na Rua Arthur de Azevedo, em Pinheiros, na zona oeste de São Paulo. A primeira impressão é de se estar diante da movimentação de uma casa noturna, apesar das mochilas que eles carregam. Um rapaz acompanhado de três amigos se aproxima do repórter e pergunta, animado e aparentemente alcoolizado: “Está rolando alguma festa?”. A resposta foi negativa, para tristeza do festeiro, acrescida da explicação: “Eles vão participar de um treinamento”.

A agitação e o burburinho acabam com o sossego naquele trecho da rua por uma hora duas vezes ao ano, quando o Centro Educacional de Aviação do Brasil (Ceab) promove o treinamento de comissários de bordo para sobrevivência na selva, no mar (marinharia) e combate ao fogo. No sábado 13 de novembro, 195 alunos da escola partiram em direção a Juquitiba, no sul do Estado de São Paulo, para ter aulas sobre armadilhas para caça, sinalização diurna e noturna, primeiros socorros, navegação com bússola e resgate, entre outras atividades.

Disciplina e organização são as palavras de ordem, literalmente, dadas aos gritos dos instrutores para que a turma faça silêncio e se organize em grupos. A divisão é feita ainda na cidade, cada um recebe um número e por meio deste será identificado até o final do treinamento, o que gera momentos de distração por causa da lembrança do filme Tropa de Elite 1. Ironia do destino ou não, o número um faltou, não teve que pedir para sair. No total, são 12 os grupos, e um membro é escolhido para ser o responsável pela turma.

Os grupos são acompanhados de perto por guias, que são ex-alunos da escola. Ela foi fundada em 1998 e forma em média dois mil alunos por ano. No curso, exigido pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) para a emissão da licença para exercer a profissão, estão incluídas disciplinas como postura e etiqueta, maquiagem, conhecimentos gerais de aeronaves, antiterrorismo e serviço de bordo.

Segundo o diretor da escola e um dos instrutores do treinamento, Salmeron Cardoso, o Ceab observou este ano um aumento de 20% na procura pelos cursos de comissário de bordo em relação ao ano passado. “Devido à expansão econômica do País e aos eventos que serão sediados nos próximos anos aqui, as companhias aéreas estão crescendo e investindo em uma melhor infraestrutura, além de aumentar o número de contratações”, diz.

Limites

A chegada ao local de treinamento, uma chácara à beira da rodovia Régis Bittencourt , foi às 7h30. O local fica num trecho ainda preservado de Mata Atlântica. Os alunos mal têm tempo para esticar as pernas ao saírem dos ônibus. Organizados em filas, os futuros comissários escutam Salmeron explicar as regras do treinamento. A primeira é a proibição de se alimentar até o final do curso, previsto para às 20h30. Além disso, todos os grupos e seus integrantes começam com 10 pontos, e as penalidades são descontadas da pontuação geral. Em caso de não participar de alguma das provas ou terminar o treinamento abaixo de seis pontos, o aluno pode ser reprovado.

“As pessoas não são confiáveis”, diz Salmeron aos chefes de equipe antes do início da trilha, em um círculo separado do restante do pessoal, para provocar conflito e aproximar o treinamento à tensão de uma situação real de acidente aéreo. Em seguida, já se dirigindo a todos, o instrutor avisa qual é o objetivo latente do treinamento. “A ideia é que vocês conheçam seus limites.” Para duas mulheres, escolhidas aleatoriamente, porém, o limite já parecia próximo desde aquele momento. Ao menos era o que demonstravam, com expressão de nojo e repugnância à tarefa que lhes foi atribuída: carregar uma galinha viva e amarrada durante todo o dia, garantindo alimentação ao grupo em caso de emergência.

Depois de quase uma hora de caminhada mata adentro, o grupo para no topo de um morro à espera das instruções dos dois policiais militares do Grupo de Operações Especiais (GOE). Eles darão as aulas sobre sobrevivência. O primeiro a se apresentar é o soldado Everaldo do Nascimento, que faz o treinamento com o Ceab há 12 anos. Com ele, os alunos aprendem a caçar animais e prepará-los. “O sangue dos animais pode ser usado como tempero”, explica. “Ao ferver partes do animal como o coração é possível também extrair sal”, acrescenta. No cardápio improvisado no meio do mato, cobras, lagartos, tatus, pássaros, entre outros, são iguarias e que podem salvar vidas. Nascimento alerta para os bichos potencialmente venenosos: “Animais com cores berrantes, como amarelo, vermelho ou preto, devem ser evitados.”

A fase seguinte fica sob a responsabilidade do soldado Renato Moreira Cardoso, que dá as instruções sobre como preparar fogueiras, montar abrigos usando folhas de bananeira e bambu e localização por meio de bússola e espelho localizador, que pode ser substituído pelo disco rígido de um computador pessoal, cujo papel é fazer focos de luz para aeronaves identificarem os perdidos na selva.

“Vocês estão aqui para se formarem gerentes de uma crise”, explica Cardoso, acrescentando que o objetivo é “sobreviverem até a chegada do resgate”. Segundo ele, delegar atividades para a busca de materiais para montar os artefatos improvisados é fundamental, assim como o uso da criatividade. “Buscamos materiais aproveitáveis; aqueles que não o são, a gente vai torná-los úteis. Pode-se fazer copo, prato, vasilha e até uma maca com bambu”, exemplifica.

Baseando-se nas histórias contadas pelo soldado Nascimento sobre a malandragem de alguns alunos com o objetivo de enganar os instrutores para não fazer as provas ou sair do regime disciplinar, falta de criatividade não será um problema em um eventual acidente. Ele explica que muitos omitem informações da ficha sanitária, o documento sobre o histórico de saúde do aluno, o que impede o diagnóstico ou a medicação adequada em caso de alguma ocorrência. “Já teve pessoa que veio para cá tomando remédio para emagrecer, ela passou mal várias vezes e a medicação não fazia efeito. Descobri quando disse que ela não tinha condição de continuar e iria embora”, conta.

Água e fogo

No saldo do treinamento em questão, quatro alunas desmaiaram, todas após ou durante a prova de marinharia. Uma teve de ser levada ao pronto-socorro de Juquitiba com quadro clínico de hipotermia porque os instrutores não conseguiram reanimá-la no local. “A tarefa mais difícil, sem dúvida, foi a da piscina, não porque tenha sido exatamente difícil, nem por eu não saber nadar, mas por causa da temperatura da água”, conta a número 57, Pamela Warriner, uma argentina de 26 anos. Vivendo em São Paulo desde o início deste ano com o namorado brasileiro, ela participou de um curso para comissárias na Argentina no ano passado, mas teve de fazê-lo novamente porque o certificado de lá não é aceito na Brasil.

Na piscina de 1,70 metro de profundidade os alunos têm noções básicas de sobrevivência no mar, com direito a pulo na água, um a um, com o clássico gesto do dedo tampando o nariz, e uso de bote salva-vidas. O programa também prevê o uso do cabo submarino, simulando a travessia de um rio para quem não sabe nadar.

“O comissário deve ter controle emocional”, diz Salmeron, durante a explicação dos procedimentos para combate ao fogo. Os grupos têm de apagar com extintores um incêndio provocado no meio de um pátio. Após isso, eles devem enfrentar a casa de fumaça, que simula um avião em chamas logo após a queda. As regras são: mão direita com a mão esquerda do companheiro, ninguém pode soltá-las até sair do local; para sair da casa é necessário antes responder a três perguntas feitas por Salmeron sobre matérias do curso. Sem a resposta certa, a porta permanece fechada e o grupo, enclausurado. “O último, por uma questão de educação, porque vocês tiveram aula de etiqueta no curso, vai fechar a porta”, brinca o instrutor. A primeira turma completa o percurso em menos de 40 minutos. A saída de cada grupo é comemorada com palmas por mais um obstáculo transposto.

Na opinião do número 157, Luiz Gustavo Falavinha, de 18 anos, tem de gostar muito da profissão para suportar o estresse do treinamento e aguentar as privações. “Desanima também pela perspectiva de ter que enfrentar uma situação parecida na vida real”, diz. A número 156, Luciana Lie Kamizaki, de 22 anos, concorda com o companheiro, mas relativiza. “Tem pessoas aqui precisando mais da nossa ajuda do que nós precisamos”, referindo-se aos desmaios e outros participantes com feição abatida.

Encerradas as provas e o programa oficial, as galinhas, que haviam sido sequestradas do caseiro da chácara no início do treinamento, voltaram vivas e foram devolvidas. Estonteadas e igualmente estressadas, sem dúvida.

O último obstáculo a ser vencido pelos futuros comissários é o de uma viagem (de ônibus) pela sinuosa rodovia que corta a Serra do Cafezal, na volta de 70 quilômetros a São Paulo. Antes, e ainda mais demorada psicologicamente falando, a caminhada até os ônibus para finalmente matar a fome.

Fonte: www.estadao.com.br

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