Instituto pondera que número atual de funcionários é pequeno para dar conta do grande crescimento do mercado brasileiro, líder mundial no uso dessas substâncias

São Paulo – O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) entende que é preciso reforçar as campanhas de esclarecimento dos trabalhadores rurais brasileiros a respeito do uso de agrotóxicos.

Márcio Freitas, coordenador geral de Avaliação e Controle de Substâncias Químicas do Ibama, entende que este é o principal problema do país em relação aos defensivos agrícolas, já que os processos de liberação de novas substâncias e de revisão do uso das já existentes são considerados seguros. “Temos com os agrotóxicos uma situação similar à que vemos com a automedicação. Com o agrotóxico, tem gente que consome sem a especificação correta, sem a indicação do técnico responsável”, avalia.

A preocupação é reforçada pelo Censo Agropecuário, divulgado em 2009 pelo IBGE. A grande maioria dos produtores afirma não ter recebido qualquer orientação técnica sobre o uso dos defensivos e boa parte afirma não ter utilizado nenhum equipamento de proteção. Além disso, 9% dos estabelecimentos simplesmente abandonam a embalagem do agrotóxico no campo após o uso, 25,7% preferem queimá-las ou enterrá-las. Além disso, o  Fórum Nacional de Combate ao Impacto dos Agrotóxicos estima que exista um índice de subnotificação dos casos de intoxicação.

A preocupação do Ibama é reforçada pelo baixo índice de escolaridade dos agricultores: 77% dos responsáveis por propriedades rurais possuem, no máximo, ensino fundamental incompleto, um desafio extra para as campanhas de esclarecimento. “Assim como evoluímos do ponto de vista da indústria na produção, precisamos evoluir do ponto de vista da proteção do homem do campo. Em termos de dar escolaridade, formação, equipamentos adequados”, avalia Freitas.

O Ibama divulgou pela primeira vez este ano o relatório elaborado anualmente sobre a comercialização de agrotóxicos. A pesquisa mostra que 88% dos defensivos comercializados no Brasil estão entre as classificações “altamente perigoso”, “muito perigoso” e “perigoso”. O país é, desde 2008, o líder mundial no consumo de agrotóxicos. As vendas apuradas pelo Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Agrícola (Sindag) superam US$ 7 bilhões, um bilhão a mais que o registrado nos Estados Unidos. O Ibama entende que a escalada no uso dessas substâncias diz respeito ao aumento da competitividade da agricultura brasileira.
Mercado

A demanda pelo registro de novas moléculas, com isso, cresce vertiginosamente. O processo de liberação é longo e envolve três ministérios. A Agricultura faz a avaliação da eficácia do produto. A Saúde, por meio da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), analisa os riscos à saúde humana. E o Meio Ambiente, com o trabalho do Ibama, estuda os impactos da substância na natureza.

No caso do Ibama, segundo Freitas, o número atual de equipes não é suficiente para realizar um processo ágil ao mesmo tempo em que tem de promover, constantemente, a reavaliação das moléculas já liberadas. O coordenador de Avaliação e Controle entende que, embora o Brasil conte com um processo de liberação comparável ao de qualquer nação desenvolvida, é preciso qualificar mais profissionais para realizar este trabalho. Ao mesmo tempo, a pesquisa divulgada pelo instituto mostra que quase metade dos agrotóxicos avaliados a pedido das empresas não chega ao mercado, o que significa que os funcionários públicos, de certo modo, perderam tempo.

Entre os princípios ativos em uso, o glifosato veio ganhando força nos últimos anos, sempre reforçando sua liderança. Hoje, o herbicida representa 76% do mercado e tem liberação comercial para 26 culturas, entre as quais se encontram a soja e o milho. Aí está a explicação encontrada pelo Ibama para tamanho domínio das vendas pelo glifosato.

Mato Grosso, São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraná e Goiás são, pela ordem, os maiores consumidores de agrotóxicos no Brasil. Não por acaso, figuram entre os grandes produtores de soja e de milho. Trata-se das duas principais culturas que têm liberação para uso de sementes transgênicas. Entre as sementes geneticamente modificadas, as mais vendidas são as comercializadas pela Monsanto, que tem no Roundup seu principal produto. O princípio ativo do Roundup é o glifosato. Embora a patente do produto da Monsanto tenha vencido e o estudo do Ibama não toque no tema das marcas comerciais, sabe-se que o Roundup é, majoritariamente, o mais vendido. Em suma, a pesquisa reforça a existência de um mercado concentrado.

Fonte: www.redebrasilatual.com.br

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