O reaquecimento da economia e a volta da trajetória ascendente nas contratações, após a crise financeira internacional, têm trazido um novo desafio às empresas: encontrar mão de obra qualificada. Diversos setores vêm se deparando com escassez de pessoal qualificado para atuar em suas linhas de produção – e muitos já apontam este fator como uma ameaça potencial às suas atividades.

O último segmento a demonstrar preocupação com a falta de profissionais foi o coureiro-calçadista. Após anos amargando perdas pelo câmbio desfavorável e pela invasão dos produtos chineses no País, o segmento finalmente começa a demonstrar fôlego para crescer, mas vem esbarrando na escassez de trabalhadores. Nos primeiros meses deste ano, os calçadistas já alcançaram o pico de empregos de 2008, antes da crise internacional, de 350 mil vagas no País (45% no Rio Grande do Sul).

As contratações devem continuar no segundo semestre se houver pessoal disponível. A principal preocupação é com a falta de costureiras e montadores de calçados, raridades no mercado de trabalho gaúcho. “Está difícil, mas as empresas têm encontrado empregados via classificados, agências de empregos e parcerias com entidades setoriais. Nossa preocupação está em daqui por diante”, explica Heitor Klein, diretor-executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados).

Boa parte dos funcionários que trabalhavam no segmento no início da década e acabaram dispensados em consequência das dificuldades do setor está sendo chamada de volta. No entanto, muitos foram absorvidos por outros setores da indústria, deixando uma lacuna no mercado de trabalho. Muitos dos candidatos não preenchem os requisitos em conhecimento técnico. Outro segmento que vem enfrentando sérias dificuldades para encontrar trabalhadores é o da construção civil. Em estado de efervescência e com muitas obras simultâneas, o segmento demanda cada vez mais trabalhadores.

Há seis meses, as construtoras calculavam abrir 15 mil vagas no Rio Grande do Sul em 2010. Agora, a previsão é de que serão abertos 25 mil postos. “Temos sofrido com falta de profissionais preparados em todas as posições: de pessoal de escritório até gente para o canteiro de obras”, explica Enio Pricladnitzki, vice-presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil no Estado (Sinduscon-RS). Os casos mais preocupantes são falta de azulejistas e pedreiros. Para preencher as vagas, algumas construtoras estão treinando e contratando mulheres – que até então não tinham espaço na construção civil – e apenados do sistema semi-aberto. Além da escassez, ameaça o setor a trajetória de alta no preço dos serviços de construção civil. Cientes de que não poderão arcar com todo o trabalho que recebem de encomenda, as empreiteiras já fazem reajustes nos preços dos contratos. “Temos receio de que este ciclo possa gerar algum tipo de gargalo mais adiante”, explica o dirigente do Sinduscon-RS.
De olho no futuro, empresas investem em qualificação

Alguns segmentos já se acostumaram com a falta de profissionais qualificados, e buscam se adaptar às circunstâncias para não paralisar as atividades. É o caso das companhias de Tecnologia da Informação (TI). Demandantes por profissionais com conhecimentos específicos, as empresas não têm alternativa a não ser treinar jovens recém-formados ou ainda nas universidades, conforme suas necessidades específicas. “Os estudantes saem da academia com conhecimentos gerais, e cabe às empresas o ônus de treiná-los”, explica Reges Bronzatti, vice-presidente da Associação das Empresas Brasileiras de Tecnologia da Informação – regional do Rio Grande do Sul (Assespro-RS). Esta realidade gera um outro problema: empresas passam a fisgar profissionais capacitados dos concorrentes, criando um ciclo de inflação nos salários e desencorajando programas individuais de coaching.

Ainda assim, moldar um funcionário conforme as próprias necessidades é uma opção usual das companhias de TI. Ao perceber que seu crescimento estaria diretamente ligado à velocidade com a qual conseguiria treinar empregados e parceiros, a Cigam, desenvolvedora de softwares ERP, decidiu criar um centro de treinamento próprio, onde definiria as especializações e o número de vagas necessário, conforme sua demanda. A Universidade Corporativa Cigam foi aberta em 2007 e, desde então, já promoveu 2,2 mil programas de treinamento para 600 pessoas.

“Os cursos não têm custo para os funcionários ou para os parceiros, uma vez que a qualificação já está prevista nos contratos comerciais”, explica Vanderlei André Reinhart, diretor de Recursos Humanos da companhia. Com a aceleração dos negócios na área de TI, o número de treinamentos tem subido 50% ao ano. Reinhart revela que a empresa investe 12% de seu faturamento em ações de capacitação. Para assegurar que os funcionários permanecerão na empresa após a formação, a companhia aposta no bom ambiente de trabalho, procurando conhecer as ambições dos funcionários e atendê-las. (EF)
Profissionais capacitados podem ter maior valorização

Os próprios trabalhadores podem investir em sua qualificação, o que poderá trazer valorização salarial ou ampliar as chances de contratação, no caso dos desempregados. Joaquim Costa, coordenador da Divisão de Acesso ao Mercado de Trabalho da agência FGTAS/Sine-RS, lembra que têm surgido muitos cursos profissionalizantes ou específicos para cada formação, muitos deles gratuitos.

Entidades empresariais e industriais costumam criar novas turmas frequentemente, em especial neste momento em que a demanda está aquecida. O próprio Sine abrirá neste ano mais de 7 mil vagas em programas de qualificação em todas as regiões do Estado. “Temos alertado os usuários de que há muitos cursos de formação em todos os setores, e participar destes programas é uma importante forma de ingressar no mercado de trabalho”, comenta. Pessoas dispostas a encontrar emprego têm uma série de opções não preenchidas por falta de candidatos capacitados. Desta forma, quem obter o conhecimento exigido por essas companhias poderá ter um ingresso mais fácil ao mercado. (EF)

Fonte: http://jcrs.uol.com.br
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