29/08/2009 às 16:32

O professor universitário Gabriel Grabowski é especialista em ensino técnico e atua como consultor do Ministério da Educação. Em suas pesquisas, Grabowski constatou que o ensino profissionalizante oferece mais empregabilidade aos jovens brasileiros do que o ensino superior. Além disso, o País precisaria formar o triplo de técnicos do que que coloca hoje no mercado, para atender a sua demanda. Confira na entrevista concedida para a repórter Carine Aprile Iervese.
 
A TARDE – O que foi possível constatar sobre o ensino técnico no Brasil?
Gabriel Grabowski – O Brasil tem, aproximadamente, apenas 750 mil alunos no ensino técnico. É um contingente baixo em relação a nossa população e demanda produtiva. Quando o País começou a crescer e desenvolver-se mais nos últimos anos, já foi perceptível a falta de profissionais formados, especialmente em algumas áreas técnicas. Isto demonstrou que os profissionais qualificados, bem formados, em instituições sérias, tiveram alta empregabilidade. Mas nossa educação brasileira possui um problema histórico: ausência de planejamento estratégico nacional. Formamos por percepções e não com base em demandas e necessidades planificadas. Então temos, em algumas áreas, excesso de
formandos, como os antigos técnicos de contabilidade, secretariado, administraço e, em outras, carências estruturais, como química, biologia, meio ambiente, petróleo, mecânica, eletrônica, técnicos de saúde e agroecologia.
 
A TARDE –  Especialistas afirmam que o Brasil precisa formar mais técnicos.
GG – Sim, precisamos no mínimo triplicar nossa formação de nível técnico a curto prazo. Mas não basta formar apenas  técnicos, precisamos melhorar toda educação básica e superior, qualificando-a, diversificando-a e formando profissionais de forte base técnica, científica e humanista. O plano de expansão da educação profissional,
capitaneado pelo MEC, deverá impactar nos próximos anos o aumento de técnicos, mas acredito que deveríamos, como nação, pensar melhor as áreas e aproximar mais das políticas de desenvolvimento, trabalho, renda, saúde, industria, serviços e agricultura familiar.

A TARDE – Quanto seria necessário investir para que o ensino técnico evoluísse no Brasil? Quanto é investido hoje?
GG – O governo federal investe basicamente na rede federal. Continuamos investindo em novas escolas, novos  laboratórios, contratação de professores públicos e estruturas que, a médio prazo, impactaram na formação de mais técnicos. Ainda não conseguimos investir rapidamente no sujeito estudante: o jovem trabalhador.  O ensino técnico, como o superior, é ainda majoritariamente privado. Pois os investimentos nas redes públicas são mais lentos e os resultados levam mais tempo. Mas, principalmente o governo federal, possui um plano ousado de expansão da rede federal. O que me preocupa é que cada governo tem um plano, o anterior também tinha, cujo resultado foi tímido. Espero que este, por ser na esfera publica, frutifique, pois na história educacional temos vários planos que não passaram da fase das grandes obras. Mas há centenas de milhões sendo investidos.

A TARDE – Quantos técnicos o Brasil forma por ano e quantos deveria formar?
GG – Estudam 750 mil alunos na educação profissional. Formamos, no máximo 1/3 deste total. Se nossa economia crescesse mais e o pais de desenvolvesse mais estaríamos com falta de profissionais. Deveríamos formar, no meu entendimento, no mínimo 500 mil por ano. Há áreas estratégicas que já há carência de profissionais. Tanto que
grandes empresas criaram as escolas ou universidade corporativas para dar conta desta formação.

A TARDE – Qual a importância do ensino técnico e profissionalizante no Brasil?
GG – O ensino de nível técnico é imprescindível para o desenvolvimento do País. O jovem formado no nível técnico consegue emprego mais rápido e fácil e com esta renda consegue cursar outros cursos, inclusive o superior. Após passarmos pelos efeitos desta última crise já sentiremos a necessidade de mais profisisonais técnicos em muitas áreas de produção.

A TARDE – O senhor indicaria especialidades mais requisitadas ou com maior escassez de profissionais na área técnica? Sabe dizer sobre essa demanda na Bahia?
GG – Na Bahia e no Brasil as necessidades são similares. Em tempos de globalização, as áreas de petróleo, gás, meio ambiente, agricultura familiar, agroecologia, construção civil, vendas – especialmente para o setor imobiliário – e saúde estão com fortes demandas. Mesmo áreas industriais antigas e novas demandam, como mecânica,
eletrônica, automação, segurança trabalho e gestão sistêmica.

A TARDE – A preferência dos jovens ainda é pelos cursos superiores? Muitos ainda acham que o ensino técnico é inferior?
GG – No Brasil, o diploma tem um valor cultural muito forte. É a herançaa da colonização e da época em que a elite mandava seus filhos estudarem na Europa. Difundiu-se a ideia de que o curso superior garante profissionalidade e emprego. Isto está mudando muito. Precisamos ter cuidado. O jovem pensa assim porque os adultos e a sociedade
assim propagaram.

A TARDE – É possível desenvolver uma boa carreira tendo apenas o nível técnico? De que forma?
GG – Sim, mas nunca podemos deixar de estudar. O conhecimento é dinâmico. O mundo do trabalho e da produção se alteram e novas formações são necessárias.

 

Fonte: www.atarde.com.br

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